Sempre tive medo de lobisomens. Não esses que vemos por aí hoje em dia com a febre Crepúsculo. Sempre tive medo do lobisomem clássico. E assim como tudo a que temo, criei uma fascinação em torno do assunto.
Desse fascínio veio a curiosidade e a posterior descoberta de que no meio literário, esse assunto não é tão vasto e diverso quanto o dos vampiros. Além do mais, por algum motivo, os lobisomens são sempre coadjuvantes em meio a outras criaturas míticas. Raramente são personagens principais ou mesmo únicos. Por isso me interessei por Calafrio, que prometia lobisomens em primeiro lugar.
Buscando mais informações pela internet, vi diversas resenhas positivas feias por fãs de Crepúsculo. E mais, sempre comparando o livro à saga vampiresca. O que esperar disso? Foi o peso da minha curiosidade contraposto ao medo do que me aguardava. Fizeram uma versão lobisomem de Crepúsculo? Estragaram mais um mito legal?
Só conseguiria descobrir isso comprando o livro. O que não foi difícil, já que ele se encontrava em uma boa promoção. Qual não foi a minha surpresa ao descobrir que a comparação com a versão vampírica não era apenas coisa de internet, está escrito na capa do livro:
“Se você é fã de Crepúsculo, vai amar Calafrio” – The Observer
Bom, como já estava com um pé atrás, não posso dizer que, por exemplo, me surpreendi muito quando Grace, a personagem principal, descreve Sam, seu par romântico, como alguém possível de ser “rotulado como um emo ou talvez um membro do Beatles na época errada” (sic). Se não estivesse avisada sobre o que possivelmente encontraria naquelas páginas, teria parado de ler por aí. Lobisomem emo? Não, pára! Já chega eles serem índios musculosos e descontrolados. Porém, por já estar esperando algo absurdo assim, prossegui a leitura.
Assim como o primeiro livro de Crepúsculo, a história é sobre o início de um romance e envolve tudo que já se ouviu falar sobre o assunto. Não importa se o amor é entre humanos, pseudo-humanos, semi-humanos ou seja lá o que for, é praticamente impossível fugir de clichês. Mesmo histórias geniais não estão isentas disso. Clichês nem são, ao menos, coisas tão ruins assim, se bem tratados. Um mérito do livro é que, apesar de não capturar leitores de forma tão forte quanto Crepúsculo, felizmente (apesar de me deixar acreditando fortemente no começo que Sam era absolutamente gay e não tinha um pênis) foge do moralismo estúpido de Meyer. Se os dois personagens principais demoram para chegarem às vias de fato mesmo dormindo juntos na mesma cama, é mais por um respeito de Sam pelo tempo de Grace e por um desejo de que tudo seja perfeito, memorável e sem arrependimento do que por medo de corromper a alma dela ou qualquer outra forma de religiosidade retrógrada.
Na verdade, a demora não me irritou propriamente. A falha do livro é apenas no ponto de vista em primeira pessoa de Sam. A autora obviamente nunca teve uma conversa mais profunda com homens, nunca tentou desvendar a mente masculina e, se o fez, foi com um cara assexuado ou gay. Fora esse pecado, o livro, a partir mais ou menos da metade, fica um pouco melhor.
Quanto aos lobisomens, seguem o mesmo preceito de Crepúsculo, realmente. Eles perdem sua carapaça mitológica tradicional e ganham ares leves e, diriam alguns, afetadas. Tudo bem, os lobisomens aqui não brilham no sol, porém, se transformam não com a lua cheia e sim com o frio. E não têm, de forma alguma, fome por carne humana, são apenas pessoas com frio que se transformam em lobos. Na verdade, na minha opinião eles não são lobisomens propriamente ditos, são apenas pessoas que se transformam em lobos, bem como poderiam ser cervos, raposas, guaxinins ou andorinhas. A única semelhança mais forte com o lobisomem tradicional é que tal condição é transmitida através da mordida.
Mais para o final do livro fala-se em uma cura para a condição. Contudo, se o leitor tem esperanças de entender como exatamente se procede essa cura, desista. O livro termina antes de qualquer coisa ser realmente explicada. Fica apenas a esperança de que nas futuras continuações (já que, para variar, é uma série) o mistério seja definitivamente solucionado.
Se me perguntarem se indico a leitura, não sei. É o tipo de texto bem bobo do qual não se pode esperar muito e que pode deixar os mais diabéticos correndo loucamente atrás da insulina. Contudo, não chega a ser um lixo literário e cumpre seu papel de conto bonitinho e adolescente sobre amor e suas adversidades “sobrenaturais”. Algo que devo dar o braço a torcer é para o livro não se dispor, incialmente, a definir essa condição de se transformar em lobo a algo completamente “místico” nem completamente científico, porém, não exclui completamente nenhuma das opções. Escapou assim de ficar trash, já que, seguindo os parâmetros do resto da história, não cabia essa reflexão ali e, se Meggie Stiefvater o fizesse, talvez transformasse a história em algo tosco, como aconteceu com a saga de Meyer.
Agora se você é fã de Crepúsculo e acha tudo absolutamente lindo e perfeito, não se acanhe, é verdade, Calafrio é um livro que os fãs da série irão apreciar, creio eu.

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