Retalhos (Craig Thompson)

retalhosAté pouco tempo atrás jamais havia ouvido falar desse quadrinho. E se ouvi, não prestei atenção. Contudo, após duas indicações vêementes de conhecidos, achei que era mais do que hora de ampliar meus campos de conhecimento e investir nessa HQ.

A história de Retalhos é autobiográfica e em suas 582 páginas é contada brevemente a história do autor, o cartunista Craig Thompson. Craig nasceu em uma família de cidade pequena, pai e mãe religiosos e pobres, seu mundo parece ter poucas perspectivas ou poucas esperanças. Ele não é um jovem que perde muito tempo pensando no futuro e não chega, necessariamente, a levar seu talento para desenho a sério.

Toda a história e a forma como é abordada é muito bela, conta em algumas partes com tons poéticos. Os temas variam da infância à juventude, abordando desde o relacionamento entre irmãos, pais, famílias no geral, primeiro amor e conta até com uma pincelada de abuso sexual. A HQ ganhou diversos prêmios da área, como cita a contracapa: três prêmios Harvey (melhor artista, melhor graphic novel original e melhor cartunista), dois prêmios Eisner (melhor graphic novel e melhor escritor/artista) e da Associação Francesa de Críticos e Jornalistas de Quadrinho.

O resumo oficial da obra é:

Thompson retrata sua própria história, da infância até o início da vida adulta, numa cidadezinha de Wisconsin, no centro dos Estados Unidos, que parece estar sempre coberta pela neve. Seu crescimento é marcado pelo temor a Deus – transmitido por sua família, seu colégio, seu pastor e as trágicas passagens bíblicas que lê -, que se interpõe contra seus desejos, como o de se expressar pelo desenho.

Com a adolescência, seus desejos se expandem e acabam tomando forma em Raina – uma garota vivaz, de alma poética e impulsiva, quase o oposto total de Thompson – com quem começa a relação que mudará a visão que ele tem da família, de Deus, do futuro e, enfim, do próprio amor.

Ou seja, mais um livro/quadrinho que compõe a onda na qual inconscientemente entrei de romances. Contudo, esse se diferencia de todos os outros que postei por aqui até o momento. Afinal, mais do que apenas falar sobre romance – mesmo sendo esse seu tema principal – ele fala sobre muito mais. O tema principal de retalhos não é exatamente o relacionamento de Craig e Raina, é o crescimento de Craig, sua passagem da infância para a juventude e então, para a fase adulta. É uma história de como um garoto criado em um mundo tão fechado, se distanciou deste não de modo necessariamente traumático, dramático ou brusco.

E é aí que está a beleza da coisa, para crescer, não precisamos de um trauma ou de um choque. Mesmo que aquilo que almejamos pareça tão díspare, essa distanciação dos ensinamentos dados pelos pais ou pela sociedade que nos cerca pode acontecer naturalmente. As pessoas vão observando, aprendendo, aprofundando conhecimentos e precebendo coisas, como as faltas de lógica do que nos ensinam.

Outro ponto que fez esse quadrinho ganhar meu coração foi o fato dele falar o tempo todo de religiosidade. O personagem passa 90% do livro crendo em tudo o que o é ensinado e seguindo ao pé da letra. Segue tudo tão certinho que vai até além, porque, de tão bom, ele é vegetariano, mesmo que sua família extremamente cristã seja carnívora com orgulho.

No fim, Craig chega à conclusão evidente de que há falhas na lógica cristã, e o fato dele eventualmente perceber isso fica claro desde o começo da HQ (por tanto, não é bem um spoiler). A única coisa que faltava para Craig perceber isso era nunca ter parado antes para refletir direito sobre o assunto, e esse é o papel de Raina em sua vida. A jovem, com simples perguntas o faz pensar e começar a questionar sobre todo o contexto da religião e do que os ensinamentos da bíblia, que ele achava ser escrita diretamente por Deus.

Porém, ao invés de dar uma de extremista, como muitos tendem a fazer hoje em dia, Craig não se torna ateu. Ele entende que o problema é a religião, modificada, alterada e manipulada pelos homens e segue uma vida espiritualizada, porém, não religiosa.

Resumindo, é um livro com uma bela mensagem que desconstroi o cristianismo de forma não ofensiva e bem lógica, sem, no entanto, chegar à conclusões extremistas os precipitadas. Leitura absolutamente indicada para todos aqueles que dejam ter excelentes momentos com uma história em quadrinho.

3 comentários para Retalhos (Craig Thompson)

  • Que bom que você gostou de Retalhos, é um dos títulos que eu costumo recomendar pros amigos que ainda não conhecem muito de quadrinhos (junto com Persépolis) e sempre funciona ;)
    Obrigada pela resenha!

  • Murilo

    É bem o estilo de quadrinho que eu gosto. Se eu encontrar, compro aqui.

  • Eu comprei esse livro na Bienal do livro que acabou de ter aqui em São Paulo, mas ainda não li. Tive a impressão que seria um livro legal e é bom ouvir outras pessoas falando que gostaram e, pelo jeito que você descreveu o livro, parece que ele vai até exceder as minhas expectativas.

    Tem um livro que li e gostei muito e que talvez vc também goste que se chama “Epiléptico”. São quadrinhos também (o cartunista se chama David B., ele é francês) e também é uma autobiografia e acaba contando como ele acabou resolvendo fazer quadrinhos. Então o livro conta como a vida dele mudou completamente depois que o irmão dele foi diagnosticado com epilepsia. O traço é muito legal e ele escreve de uma maneira muito sincera e, na minha opinião, muito corajosa, porque ele fala coisas sobre como ele se sentiu que muita gente não falaria por não querer ser julgado.

    Enfim, não sei se soube dizer bem como o livro é, mas eu recomendo, achei muito bom e não é um dramalhão (como talvez tenha pareceido pelo jeito que eu o descrevi), na verdade ele é bem cruel às vezes.

    Antes de terminar esse comentário gigante e antes que eu me esqueça: adorei seu blog, muito boa a idéia e você indica os livros de uma forma que realmente dá vontade de lê-los. Vou voltar mais vezes.

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